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Madonna transforma Confessions II em celebração da pista, da memória e da própria história

Foto do escritor: Leonardo Campos
Leonardo Campos
há 6 minutos
6 min de leitura

Novo álbum retoma o espírito de Confessions on a Dance Floor, mistura euforia e vulnerabilidade e antecede o retorno da cantora ao palco do VMA


Madonna em apresentação com iluminação intensa em tons de laranja e rosa.
Madonna em imagem usada na abertura do artigo sobre Confessions II

O décimo quinto álbum de estúdio da rainha do pop Madonna, intitulado Confessions II, chegou ao público em 03 de julho de 2026 como uma celebração contínua e imersiva das pistas de dança, sendo amplamente aclamado como um dos melhores álbuns dos últimos anos da cantora. Eu, particularmente, um estudioso da obra da artista há mais de uma década, além de admirador de suas produções no âmbito do diletantismo, não levei muita fé quando o álbum foi noticiado. Dificilmente ela conseguiria, em meu ponto de vista, retomar o clima singular da produção de 2005. Mas, ao passo que as faixas foram divulgadas, a sensação de pensamento errôneo logo se estabeleceu. Perfeito? Não, mas Confessions II é uma das melhores coisas que a artista gestou artisticamente nos últimos anos. O projeto marca o retorno à gravadora Warner Records, empresa onde ela construiu a maior parte de sua carreira histórica, trazendo também o selo Maverick, fundado pela própria, lá anos 1990, associado a algumas edições físicas e lançamentos específicos. Concebido como uma sequência direta do clássico Confessions on a Dance Floor, de 2005, o disco nasceu sob a inspiração de desafios familiares e profissionais, além do tenso cenário sociopolítico mundial, o que motivou Madonna a conceber um trabalho altamente animado para servir como uma forma de distração e refúgio coletivo.


A espinha dorsal desse groove ininterrupto foi moldada principalmente ao lado do produtor Stuart Price, que coproduziu o álbum de duas décadas atrás, realizando as sessões de gravação no estúdio dele em Londres. Expandindo os horizontes sonoros para além dessa parceria clássica, Madonna uniu forças com um time eclético de produtores contemporâneos e vanguardistas, incluindo Martin Garrix, Cirkut, Andrew Watt, Mirwais Ahmadzaï, Arca e Parisi. Essa rica “colcha de retalhos” musical ganha ainda mais dinamismo com participações vocais especiais de nomes como Sabrina Carpenter, Feid, Stromae e da filha mais velha da cantora, Lola Leon, que ajudam a injetar novas texturas e ritmos ao longo de toda a audição. Estruturado meticulosamente como um set de DJ em uma mixagem contínua, o álbum amarra todas essas colaborações sem deixar espaços em branco entre as faixas, incorporando diversos samples e interpolações que dão fluidez à experiência de áudio. Enquanto a música flui sem pausas, as letras navegam por temas profundos como liberdade, escapismo, autoconhecimento, luto e espiritualidade.


É Madonna resgatando, também, memórias do início da carreira, numa nostalgia de si mesma, bem como dos seus conturbados relacionamentos familiares. Ampliando a imersão sensorial, o projeto foi idealizado parcialmente como um álbum visual, sendo acompanhado por um curta-metragem musical de mesmo nome dirigido pelo coletivo TORSO, o que traduz visualmente a cadência ininterrupta do áudio. Essa proposta de manter o ouvinte preso a um fluxo sonoro constante por 63 minutos de duração surge como um verdadeiro desafio para a era do Tik Tok e da rapidez das coisas, peitando a tendência atual de canções fragmentadas e consumidas de forma instantânea. Ao exigir atenção e entrega total do público para acompanhar a jornada completa do set de dança, Madonna reafirma sua relevância artística e capacidade de ditar regras no mercado fonográfico. A insistência no formato longo e conectado prova que o escapismo e a imersão na noite ainda possuem um poder magnético capaz de desacelerar o imediatismo digital por meio do ritmo. Inicialmente efusivo, é um álbum que se entrega a vulnerabilidade próxima ao desfecho, tal como nossa ida para uma boate: abertura empolgante e guarda baixa na saída.


Além disso, importante destacar nesta análise, que o álbum explora amplas camadas de sonoridades eletrônicas e dançantes, estruturando-se em torno do dance-pop e da house music com suas variações encorpadas de progressive house e french house, que trazem batidas marcantes e progressões rítmicas hipnóticas para as pistas. A atmosfera retrô e vibrante ganha espaço com o nu-disco, enquanto o synth-pop injeta melodias nostálgicas guiadas por sintetizadores clássicos, complementando a energia festiva que remete às raízes de idas aos clubes da lendária Danceteria nova-iorquina. Aprofundando a diversidade conceitual do repertório, o disco transita pelo eletrônico experimental, notadamente nas texturas vanguardistas e batidas propulsoras produzidas em colaboração com Arca, e incorpora o latin pop com um apelo rítmico moderno e fluido em parcerias internacionais como a faixa ao lado de Feid. Por fim, o projeto desacelera o ritmo em momentos de maior introspecção e densidade emocional por meio do downtempo, equilibrando a euforia generalizada da pista de dança com paisagens sonoras mais cadenciadas e atmosféricas.


E assim, nesse retorno histórico da rainha do pop às pistas de dança, servindo como uma sequência espiritual e madura do aclamado disco de 2005, Confessions II é estruturado de forma contínua como um set de DJ, como já mencionado, pelo produtor Stuart Price, num trabalho mistura euforia e melancolia ao processar vivências de perdas, superações familiares e reflexões sobre a própria carreira. Ao longo das faixas da edição padrão, a artista passeia por vertentes ricas da música eletrônica, alternando entre batidas nostálgicas e parcerias contemporâneas para transformar a pista em um ambiente ritualístico e terapêutico de cura. I Feel So Free abre o trabalho ditando o ritmo de libertação espiritual através de uma sonoridade marcante de deep house, celebrando o ato de dançar como uma válvula de escape para as pressões cotidianas. Em seguida, Good For The Soul aborda o autoconhecimento e o bem-estar mental em uma atmosfera envolvente guiada pelo french house. A jornada ganha um contorno de manifesto existencial em One Step Away, uma faixa de abordagem minimalista influenciada pelo techno conceitual europeu que discute a proximidade entre a perda e o recomeço. Encerrando o primeiro bloco, Bring Your Love une Madonna e Sabrina Carpenter em um dance-pop solar e cativante, embalado por um sample clássico do techno de Detroit focado na celebração do afeto coletivo.


Danceteria homenageia diretamente o clube nova-iorquino que impulsionou o início da carreira da cantora nos anos oitenta, combinando eletropop enérgico com synth-pop retrô para tratar de nostalgia e perseverança. Em contrapartida, Read My Lips traz a participação de Feid e injeta um ritmo sensual de reggaeton eletrônico voltado para os jogos de sedução na noite. Everything se destaca como uma confissão íntima sobre excessos e gratidão envolta por sintetizadores espaciais e uma produção disco moderna. Love Without Words fecha essa sequência central apostando em um eletro-house instrumental e progressivo, cujo tema central gira em torno da ideia de que o movimento físico é capaz de expressar sentimentos de maneira muito mais profunda do que o discurso falado. Bizarre conta com a colaboração de Martin Garrix e eleva a energia do álbum por meio de um EDM hino focado nos absurdos e nas contradições dos relacionamentos românticos. O ambiente se torna outro em School, uma música experimental com traços de breakbeat que mergulha nas memórias da infância e nos aprendizados duros da juventude. Fragile traz um tom altamente emotivo ao homenagear o falecido irmão da cantora, Christopher Ciccone, lidando com o luto e a reconciliação familiar sob uma delicada batida de downtempo e synth-wave. Temos também My Sins Are My Savior, ao lado de Stromae, costurando uma mistura de eurodance com pop alternativo que aborda a espiritualidade e a redenção pessoal, amarrando as confissões da obra.


Montagem reúne Madonna em diferentes momentos da carreira, apresentações e referências visuais ligadas ao VMA e a Confessions II.
Madonna em diferentes fases da carreira e apresentações que dialogam com Confessions II e sua trajetória no VMA

Lembrando...


A história de Madonna com o MTV Video Music Awards se confunde com a própria trajetória da música pop moderna. Desde a primeira edição do evento, em 1984, a cantora estabeleceu o palco da premiação como seu território de subversão e inovação. Foi naquele ano que ela chocou o mundo ao rolar pelo chão vestida de noiva durante a apresentação de Like a Virgin, definindo o tom provocativo que o VMA passaria a carregar nas décadas seguintes. Ao longo dos anos, ela colecionou momentos antológicos, como a estética teatral de Vogue em 1990 e a consagração em 1986, quando se tornou a primeira mulher a receber o prêmio Video Vanguard. Esse legado de quebra de tabus atingiu outro ápice em 2003, na lendária abertura em que dividiu o palco e um beijo histórico com Britney Spears e Christina Aguilera.


Após um longo período sem se apresentar musicalmente na premiação, a Rainha do Pop fez um retorno triunfal na edição de 2026, realizada em Los Angeles. Madonna provou que sua capacidade de ditar tendências e atrair os holofotes continua intacta ao liderar as indicações da noite, impulsionada por seus trabalhos mais recentes. Ela assumiu a responsabilidade de abrir a cerimônia com uma performance apoteótica que misturou seus grandes clássicos a novas faixas, dividindo o palco com os principais nomes da nova geração do pop mundial. Ao final da noite, além de celebrar sua história, a artista levou para casa troféus importantes que reafirmaram sua relevância atual na indústria fonográfica e consolidaram, mais uma vez, o espírito transgressor que une sua carreira ao palco do VMA.

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