top of page

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor aposta na nostalgia, mas desperdiça potencial

Foto do escritor: Leonardo Campos
Leonardo Campos
há 10 minutos
7 min de leitura

Sequência se apoia na química entre Sandra Bullock e Nicole Kidman, mas esbarra em um roteiro apressado e pouco aprofundado



O cérebro humano carrega um instinto ancestral de que a sobrevivência depende da nossa permanência em grupo. Esse medo profundo da exclusão social alimenta um forte desejo de conformidade, resultando no que a psicologia e a sociologia chamam de “Efeito Manada”. Trata-se de um fenômeno em que os indivíduos passam a seguir coletivamente as opiniões e ações da maioria, abrindo mão de suas próprias convicções e de uma postura crítica apenas para se sentirem integrados. No universo do cinema, esse comportamento se manifesta quando a angústia de ficar de fora do consenso sabota a racionalidade dos analistas. Atualmente, muitos profissionais demonstram receio de perder a credibilidade ao confrontar a corrente principal. Com isso, preferem rotular a sequência Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor como uma obra completamente descartável, alinhando-se de forma confortável ao julgamento geral em vez de construírem uma análise autêntica. Prefiro seguir pela contramão.


É inegável que a nova produção apresenta diversas fragilidades, mas é preciso contextualizar que o ponto de partida de 1998, protagonizado por Sandra Bullock e Nicole Kidman, nunca foi uma obra-prima dramática. Apesar disso, a história das irmãs Owen tornou-se um clássico cult com o passar dos anos, impulsionada recentemente pelas redes sociais, que resgataram momentos marcantes como a cena das margaritas da meia-noite, atraindo o interesse de novas gerações. Diante de uma campanha de marketing gigantesca e de altas expectativas, a recepção uniformemente negativa da sequência causou espanto. O hábito de acompanhar a opinião dos pares para enriquecer o debate crítico acabou revelando uma repetição de ideias similares e sem originalidade. Assustado, confesso que me decepcionei com o filme antes mesmo de assistir. A questão se estabeleceu: será mesmo assim, tão ruim? Era só esperar para conferir. E aqui cheguei. Embora Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor esteja longe da perfeição, ele também não é a atrocidade que a corrente majoritária faz parecer.


O interesse por uma sequência de Da Magia à Sedução não é recente e vem sendo alimentado por múltiplos fatores. Além da forte onda de “retromania” que dita os rumos do cinema atual com o resgate de clássicos modernos, um reencontro marcante entre as protagonistas no tapete vermelho do Oscar reacendeu essa chama. Na ocasião, as atrizes demonstraram publicamente o carinho mútuo e o enorme apreço que guardam pela produção original. Quando foi lançada em 1998, a produção passou longe de ser um sucesso de bilheteria ou de conquistar a aprovação da crítica especializada. Apesar do desempenho tímido nos cinemas, a obra conseguiu garantir um espaço cativo na memória afetiva de muitos espectadores nostálgicos, mantendo o título constantemente no radar do público ao longo das décadas.


O projeto também representou um momento de transição e refúgio na carreira de suas estrelas. Sandra Bullock vinha do amargo fracasso comercial de Velocidade Máxima 2, enquanto Nicole Kidman lidava com o desgaste de um divórcio conturbado com Tom Cruise e com a exaustão física e mental dos bastidores do onírico De Olhos Bem Fechados, sob a direção exigente de Stanley Kubrick. Dessa forma, as filmagens funcionaram como uma verdadeira oportunidade de diversão para ambas. Visualmente a obra se destacava por sua estética extremamente atrativa, embora o roteiro e a execução final apresentassem claras fragilidades. A premissa das irmãs bruxas sob uma maldição amorosa secular carregava uma abordagem multicultural que exigia uma estrutura dramática bem mais robusta. O corte final acabou entregando uma narrativa superficial diante do grande potencial que o texto oferecia para debater temas profundos como irmandade, sororidade, empatia e o desafio de conviver com as diferenças em meio a preconceitos e padronizações sociais. É aquele filme fofo, que amamos, mas frágil.


O enredo desta sequência de 2026 expande a mitologia da família Owens ao mergulhar na raiz de seus poderes e focar na tentativa definitiva de quebrar a maldição centenária que mata os homens por quem elas se apaixonam. Desta vez, a crise ganha força quando segredos obscuros do passado ressurgem por meio de Kylie, filha de Sally, forçando a linhagem de bruxas a se unir novamente. A trama introduz novos rostos no elenco, como as atrizes Joey King e Maisie Williams, que assumem os papéis das filhas de Sally, além de Lee Pace como um historiador que auxilia na investigação mística, expandindo o universo familiar sem perder o foco nos vínculos domésticos. O desenvolvimento do roteiro, no entanto, é o ponto onde a produção mais demonstra suas fragilidades estruturais, falhando em equilibrar o peso do legado com as novas exigências narrativas. Baseado no livro O Livro da Magia, o texto tenta abraçar simultaneamente a nostalgia dos fãs veteranos e a apresentação de conflitos para a nova geração, o que resulta em uma condução por vezes genérica e apressada. Sob a direção de Susanne Bier, a transição entre o suspense sobrenatural e o drama familiar carece da organicidade orgânica que o formato exigia, fazendo com que resoluções importantes soem superficiais e dependentes demais de conveniências de roteiro ao longo de seus desnecessários quase 120 minutos de duração.


No comparativo entre as protagonistas, Sally Owens ressurge em 2026 carregando o peso de sua habitual cautela, mas agora moldada por décadas de amadurecimento e pela responsabilidade de proteger suas filhas adolescentes. Se no filme de 1998 ela passava boa parte do tempo rejeitando a própria natureza mística na busca desesperada por uma rotina normal, na sequência ela aceita sua identidade como bruxa matriarca, embora ainda lute contra o medo constante da perda. Sua jornada deixa de ser sobre a negação de si mesma e passa a se concentrar em como usar seus dons para blindar a nova geração das dores que ela própria enfrentou. Por outro lado, Gillian Owens mantém intacto o espírito impulsivo e a irreverência livre que ditaram suas ações no longa original, funcionando novamente como o contraponto perfeito à sobriedade da irmã. No clássico de 1998, a rebeldia de Gillian operava como uma fuga inconsequente que a colocava em situações de extremo perigo físico e espiritual. Na produção atual, embora sua essência descontraída e ligada ao lado mais vibrante da magia permaneça viva, suas atitudes demonstram um senso de autoproteção muito mais refinado, mostrando que o tempo a transformou de uma jovem vulnerável em um pilar de sustentação incondicional para o clã.


Dentre os pontos de fragilidade da produção, o desenvolvimento do principal antagonista da história é outro elemento fraco e superficial. O novo antagonista, apressado em sua aparição, traz em sua ausência uma redução do impacto de suas ações, transformando uma figura que deveria injetar um perigo real e constante em apenas um obstáculo físico passageiro, sendo este um dos pontos mais baixos do roteiro. Ademais, a resolução do conflito final também é vista por muitos analistas como excessivamente simples ou anticlimática para as proporções da narrativa. A forma como a maldição milenar e o processo de possessão são resolvidos perde o peso dramático que havia sido acumulado ao longo de toda a projeção. Ao optar por uma saída rápida e conveniente, o desfecho esvazia a atmosfera de urgência que vinha sendo construída, deixando a sensação de que os perigos que assombravam a linhagem das bruxas por séculos foram desatados sem o devido esforço ou sacrifício. Para uma época tão politizada, uma estruturação mais profunda da diversidade em torno das bruxas pedia um roteiro mais forte. Mas não rolou.


Além disso, a mistura excessiva de gêneros cinematográficos confunde o ritmo e prejudica a unidade da narrativa. O roteiro oscila de maneira brusca e sem transições suaves entre a comédia romântica leve, o drama familiar e o suspense de terror com elementos explícitos de possessão sobrenatural. Essa oscilação tonal constante impede que o filme se firme em uma identidade clara, deixando o espectador desorientado diante de uma obra que tenta abraçar múltiplos estilos sem conseguir equilibrar as exigências de nenhum deles. No entanto, caro leitor, apesar das falhas estruturais, nem tudo é frágil na produção, pois o carisma das atrizes coadjuvantes que interpretam as tias eleva de forma notável a qualidade de cada cena em que aparecem. Stockard Channing e Dianne Wiest entregam performances excêntricas, divertidas e repletas de uma sabedoria peculiar que rouba a atenção do espectador a cada intervenção.


A presença magnética dessa dupla veterana injeta uma dose necessária de leveza e calor humano na narrativa, funcionando como um porto seguro e nostálgico para o público em meio aos momentos mais atribulados da trama. O tom de realismo mágico também se sobressai como um elemento muito bem construído dentro da estética visual da obra. O design de produção de Tom Burton demonstra grande competência ao conseguir equilibrar cenários cotidianos e realistas com detalhes lúdicos e representações de bruxaria de maneira totalmente orgânica. Esse cuidado visual impede que o universo retratado pareça bobo, exagerado ou artificial demais, garantindo que a atmosfera mística ganhe contornos de credibilidade e encante os olhos de quem assiste sem quebrar a imersão na história. A direção de fotografia de Simon Duggan, apesar de não estabelecer a paleta firme do filme de 1998, também entrega alguns bons momentos.


A trilha sonora de Rupert Gregson-Williams acerta no tom, mesmo que, em comparativo, esteja longe de docilidade da composição para ao antecessor. A química marcante entre as duas protagonistas se consolida como o maior trunfo de toda a produção. A dinâmica de atuação e o entrosamento natural estabelecido entre Sandra Bullock e Nicole Kidman convencem o espectador, sem esforço, de que aquelas personagens compartilham um laço de irmandade profundamente forte, íntimo e genuíno. É justamente essa conexão central entre as atrizes que sustenta o interesse emocional do filme nos momentos em que o roteiro fraqueja, transformando o afeto mútuo na verdadeira âncora de toda a jornada cinematográfica. E, por fim, a mensagem central sobre a união e a força coletiva entre as mulheres é exposta de forma amplamente positiva no encerramento. O clímax e a mobilização das moradoras da cidade vizinha para apoiar as protagonistas celebram a sororidade de um jeito marcante e inspirador, numa produção que poderia tomar o ponto de partida de 1998 e potencializá-lo em uma discussão feminina e política muito mais engajada, mas que acaba deixando essa oportunidade de lado para ser apenas um bom entretenimento, com pontos de discussão interessantes que nunca são aprofundados.


Em linhas gerais, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor se conforma em ser apenas bom, quase caminhando para o razoável, quando na verdade tinha todos os elementos para ser ótimo.

Comentários


bottom of page